ÁPIS   E   OR

 

 

A rua em que eu nasci era de terra;

 

Terra vermelha e quando caia a chuva, fazia enxurrada que corria caldulenta, escura, como fosse calda de pudim de leite que perdeu o ponto; Essa calda corria nas laterais da rua como fossem dois rios perdendo volume, correndo em terra quente no calor de quase 40º.

 

Os poucos carros que passavam, deslizavam no meio da rua, só mesmo as carroças com os seus burros, conseguiam passar sem problemas.

 

As pessoas passavam no espaço destinado às futuras calçadas (passeio-público), com cuidado, mas mesmo assim, os sapatos ficavam vermelhos de barro.

 

E quando a chuva parava, o sol já ameaçava por sua cara de luz por entre as nuvens e o calor voltava forte, os raios do sol secando a rua, rachava o barro que ficava feito lascas de chocolate, nessa hora o céu parecia uma caixa de lápis de cor em degrade de vermelho.

 

Acho que as pessoas nunca entenderam o porque de eu ficar tanto tempo observando a rua, sentada no muro da frente de minha casa.

 

Sempre fui fascinada pelo céu de minha terra e esse céu, após a chuva, era infinitamente mais bonito, era tudo o que alcançavam os meus olhos de menina; dormindo sonhava com ele; era capaz de encontrar e contar infindáveis carneirinhos que as nuvens me permitiam, pois não havendo vento, eles ficavam mais tempo no céu sem se diluir; sempre achei que observando o céu, Deus também me observava – pois Deus era e é,  toda essa natureza!

 

Soltar papagaio/pipa, era um grande evento, lançava nos céus meus papagaios de papel celofane com rabiola de argolas do mesmo papel, coladas com cola caseira, de farinha de trigo e água, não podia por muita, para não pesar; a linha era fácil de conseguir, minha mãe sempre teve amor à costura e em sua máquina, tinham  gavetas recheadas delas e de todas as cores e se ali não tivesse, por certo teria na alfaiataria de meu pai.

  

No inverno, durante as férias escolares, o céu ficava ainda mais colorido, havia por lá a disputa do mais bonito papagaio e daquele que mais alto se mantivesse no infinito azul daquele céu que protegeu-me e permitiu-me sonhar...

                                     

 

Era tão doce amar a  minha rua...

rua de caramelo, rua de chocolate...

 

Dos pássaros  que lá cantavam, principalmente após a chuva, trago nos ouvidos os doces acordes.

 

A Deus agradeço a permissão de ter nascido lá.

 

São Paulo, 23.07.2008

00:21 horas